EDITORIAL – “VIGIAR E PUNIR”: DO CAMINHO CONDENADO POR FOUCAULT ATÉ A VERDADEIRA LIBERDADE PELO CONHECIMENTO

Ao ser convidado a pensar criticamente sobre si mesmo e sobre o mundo, o preso deixa de ser mero “alvo” do sistema e passa a atuar como sujeito de seu próprio processo de emancipação

A educação superior no contexto prisional brasileiro não se limita a uma mera oferta de disciplinas: ela representa um verdadeiro vetor de transformação social, capaz de quebrar o ciclo da criminalidade e restabelecer a dignidade dos indivíduos privados de liberdade. Ao possibilitar o acesso a conhecimentos técnicos e acadêmicos, os cursos universitários permitem que o detento construa competências cognitivas, emocionais e éticas – elementos fundamentais para sua reinserção no mercado de trabalho e, consequentemente, para a redução das taxas de reincidência.

Foucault: as prisões como máquinas de controle social e reprodução de mecanismos de exclusão e estigmatização

Em sua clássica obra “Vigiar e Punir: História da Violência nas Prisões”, o filósofo francês Michel Foucault denuncia a prisão como uma máquina de controle social que, em vez de promover a reabilitação, tende a reproduzir mecanismos de exclusão e estigmatização. Foucault destaca que, no modelo punitivo tradicional, o recluso é transformado em “objeto de saber”, aprisionado em disciplinas que visam mais o controle do que a transformação pessoal. No entanto, é justamente na educação que reside a possibilidade de subverter esse paradigma: ao ser convidado a pensar criticamente sobre si mesmo e sobre o mundo, o preso deixa de ser mero “alvo” do sistema e passa a atuar como sujeito de seu próprio processo de emancipação.

John Braithwaite: programas educativos em ambientes carcerários geram “shaming” reintegrativo

Complementando essa visão, o sociólogo australiano John Braithwaite, em estudos sobre justiça restaurativa e reintegração social, argumenta que programas educativos em ambientes carcerários geram “shaming” (envergonhamento) reintegrativo, ou seja, quando o indivíduo sente remorso por seus atos mas, ao mesmo tempo, percebe que a sociedade ainda o acolhe como membro digno. Braithwaite demonstra, com base em diversos levantamentos empíricos, que iniciativas avaliadas em várias partes do mundo — incluindo experiências pilotos no Brasil — resultaram em queda significativa nos índices de reincidência, uma vez que os participantes destes cursos passam a estabelecer novos vínculos sociais e perspectivas de futuro.

Além dos aportes teóricos, diversas experiências nacionais comprovam os ganhos trazidos pela educação superior prisional. O programa Univesp Aberta no Núcleo de Educação Corporativa, em parceria com universidades públicas, registra que mais de 70% dos egressos de cursos técnicos e de licenciatura conseguiram emprego formal nos seis meses seguintes à soltura, em setores que vão da logística à tecnologia da informação. Essas iniciativas também impactam positivamente o convívio interno, reduzindo conflitos e contribuindo para a construção de um ambiente mais colaborativo dentro das unidades prisionais.

Por fim, é imprescindível considerar que a educação não deve ser vista como “favorecimento” ao detento, mas sim como um investimento na segurança de toda a sociedade. Ao dotar o indivíduo de repertório cultural, habilidades profissionais e senso crítico, o Estado fortalece a cidadania e reafirma seu compromisso com o Estado Democrático de Direito. Assim, ao implementarmos e ampliarmos a oferta de cursos superiores no sistema prisional, estamos também plantando as sementes de uma sociedade mais inclusiva, justa e pacífica – um legado que transcende grades e muros.

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CONRADO VITALI

Assessoria de Imprensa

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